Os fins de tarde eram, inevitavelmente, o princípio das suas noites.
E essas eram, inevitáveis, em princípio e, sem fim.
(do mundo, que não chega a ser estranho, das torradeiras)
Os fins de tarde eram, inevitavelmente, o princípio das suas noites.
E essas eram, inevitáveis, em princípio e, sem fim.
(do mundo, que não chega a ser estranho, das torradeiras)
Tendo escolhido viver dentro de um molde, era-lhe difícil não comparar o frio das paredes com o frio das mãos que lhe tocavam.
Mas, que interesse tinha isso? Eram apenas gradações do frio, daquele frio onde se havia congelado, a si e à sua vida.
Conformar-se era demasiado, mesmo para quem, assim arrefecido, dizia não sentir.
- Ouve lá ó frigorifico, o que estás tu aí a dizer baixinho…!?
Há umas coisas que são capazes de viver em casas com janelas que dão sobre as noites, com vistas que se avistam, enquanto outras coisas ( suspeita-se que sim)) que criam desequilíbrios na parede do predio defronte e andam normalmente acopladas em pensamentos, rasgam as noites.
Chamam-se torradeiras e ouvem canções. Coisas!
Por entre os fios, um circuito alternativo, filtra os domingos, com a ajuda do sol.
É assim, que, desvinculadamente, em cima da bancada, sobrevive uma torradeira.
- Ao sol, é verdade.
Há dias em que uma torradeira esturrica tudo.
E por via disso, enegrece a cozinha e aborrece a vizinha.
Soltaram-se uns fios. Ficou silenciosa e cheia de migalhas.
Nem o sol da manhã, reflectido no frigorifio, a fez esquecer.
Mas esquecer o quê, se ela era uma torradeira sem memória, nem qualquer outro circuito alternativo?
Quando uma torradeira resolve fazer uma parceria com o electrodoméstico que está ao seu lado, está tudo perdido.
Há festa na cozinha!
Esganiçam como podem, aproveitando o eco que a cozinha, a horas mortas, oferece.
É assim, que juntos se conseguem fazer ouvir, pelo menos ali, naquela cozinha envolta na penumbra daquele que foi mais um dia.
Artigo 1.º (Direitos das torradeiras)
Depois de muito se olharem pela janela, a energia eletromagnética entre outras coisas, fê-las sorrirem.
Isso bastou para que a torradeira, discretamente acomodada ao lado do frigorifico, fizesse uma parceria com a antena do prédio defronte.
Foi assim, que a torradeira, se tornou capaz de captar estados de alma num raio de muitos kilómetros, de pegar neles e de os transformar. nas mais das vezes em canções, como esta.
Por via de serem musico-dependentes, alguns tuberculos, tem que concluir que há músicas que, sem se saber bem nem como nem porquê, são uma boa alternativa às batatas.