Ser torradeira de fios frios, era uma bela de uma porra!
Havia algo que lhe arrefecia os fios. Pensou que havia de.
… talvez, ouvir isto.
Ser torradeira de fios frios, era uma bela de uma porra!
Havia algo que lhe arrefecia os fios. Pensou que havia de.
… talvez, ouvir isto.
- Tu estás aí quieta mas não aqueces como deves aquecer.
(…)
- Tu tens uma luz mas não geras o frio que te faz existir.
(…)
- … ouves o meu frio e a tua água, ouves?
Os fins de tarde eram, inevitavelmente, o princípio das suas noites.
E essas eram, inevitáveis, em princípio e, sem fim.
(do mundo, que não chega a ser estranho, das torradeiras)
Tendo escolhido viver dentro de um molde, era-lhe difícil não comparar o frio das paredes com o frio das mãos que lhe tocavam.
Mas, que interesse tinha isso? Eram apenas gradações do frio, daquele frio onde se havia congelado, a si e à sua vida.
Conformar-se era demasiado, mesmo para quem, assim arrefecido, dizia não sentir.
- Ouve lá ó frigorifico, o que estás tu aí a dizer baixinho…!?
Há umas coisas que são capazes de viver em casas com janelas que dão sobre as noites, com vistas que se avistam, enquanto outras coisas ( suspeita-se que sim)) que criam desequilíbrios na parede do predio defronte e andam normalmente acopladas em pensamentos, rasgam as noites.
Chamam-se torradeiras e ouvem canções. Coisas!
Por entre os fios, um circuito alternativo, filtra os domingos, com a ajuda do sol.
É assim, que, desvinculadamente, em cima da bancada, sobrevive uma torradeira.
- Ao sol, é verdade.
Há dias em que uma torradeira esturrica tudo.
E por via disso, enegrece a cozinha e aborrece a vizinha.
Soltaram-se uns fios. Ficou silenciosa e cheia de migalhas.
Nem o sol da manhã, reflectido no frigorifio, a fez esquecer.
Mas esquecer o quê, se ela era uma torradeira sem memória, nem qualquer outro circuito alternativo?
Quando uma torradeira resolve fazer uma parceria com o electrodoméstico que está ao seu lado, está tudo perdido.
Há festa na cozinha!
Esganiçam como podem, aproveitando o eco que a cozinha, a horas mortas, oferece.
É assim, que juntos se conseguem fazer ouvir, pelo menos ali, naquela cozinha envolta na penumbra daquele que foi mais um dia.
Artigo 1.º (Direitos das torradeiras)